Manifesto
Vestir nada, para poder sentir tudo.
Flávia, fundadora da Inclusive Me. Gravado no dia em que as primeiras peças-piloto chegaram.
Desde pequena eu fui bem esquisita.Nunca me encaixei, porque eu queria mais.
Me falaram que eu era intensa. Que eu era demais.Eu sinto as coisas demais, eu me jogo demais, eu sou animada demais.E às vezes eu tenho medo de menos.
Falaram que a minha comunicação não era boa. Que eu era caótica.Até meus pais.E a gente vai se moldando. Vai entrando nas caixas que falam que você deveria entrar.
Aí eu tive um filho, e veio o diagnóstico de autismo.
Teve um período muito grande que ele andava descalço. Não colocava sapato.Eu lembro de chorar e falar: meu Deus, eu preciso que esse menino um dia use sapato.E não conseguia.
Eu inverto todas as roupas dele.A costura incomoda. A etiqueta incomoda.
Na pandemia eu comecei a trabalhar em casa, a usar roupa confortável.E percebi o quanto aquilo me incomodava também.
A gente, por condicionamento social, esquece e aceita coisas que nos incomodam.A gente aceita viver sufocado.E a gente para de sentir as coisas.
Isso começa muito pela roupa.Eu não consigo comprar uma peça sem etiqueta, sem um negócio me sufocando, sem uma coisa me coçando.Imagina para a criança.
Então: inclusive. Ser inclusivo.Que que é ser inclusivo?É todo mundo poder pertencer ao mesmo ambiente. Típico, atípico, quem se incomoda, quem não se incomoda.
Porque quantas pessoas esqueceram de sentir?Ou sentem demais, ou sentem de menos.Todo mundo à base de medicamento, já não sente mais nada, porque tá na hamster wheel, tá no automático.
Eu vou fazer roupa que seja atypical friendly. Que seja sensorial.Que você se sinta bem, que você seja bonito, e que você também possa ser cool.
Eu passei muito tempo tentando escalar produto dos outros.Dessa vez não dá para ter medo.
Um amigo olhou para mim e falou: Flávia, só faz.Eu falei que não fazia sentido.Ele falou: que sentido você quer num mundo que gira milhares de quilômetros e a gente continua parado numa bola de pedra girando?
Nada faz sentido. Só faz.
Hoje chegaram as primeiras peças.Antes era um sonho, um manual de marca, um moodboard.Eu não sou uma pessoa muito emotiva, mas pegar as peças na mão me deu um pouco de medo e a sensação de uma coisa se materializando.
As coisas têm que ter propósito.Construir algo que tira gente de um desconforto constante é propósito.
Eu sei que às vezes é uma roupa.Mas acho que representa muito mais do que isso.
Vestir nada, para poder sentir tudo.
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O manifesto acima foi montado a partir desta conversa. As frases são as mesmas; o que mudou foi a ordem e o corte das repetições da fala. Nada foi acrescentado.
Sempre achei, desde que eu sou pequena, eu sou bem esquisita. E eu sempre achei que eu não me encaixava porque eu queria mais, eu era diferente.
Eu sempre fui muito… as pessoas me falaram que eu sou muito intensa e demais. Eu sinto as coisas demais e eu me jogo demais e eu sou animada demais e, às vezes, eu tenho medo de menos.
E eu sempre achei que isso era uma característica minha. E essa característica me fez sofrer muito ao longo dos anos e ao longo da vida, principalmente no mundo do direito, mundo corporativo.
E eu recebi reiteradas vezes comentários assim de que, ah, minha comunicação não era boa, de que eu era caótica, de que eu não me encaixava. Até meus pais, assim.
E aí eu acho que a gente vai se moldando. Eu acho que você vai mudando e você vai se enquadrando. Então você vai entrando nas caixas que as pessoas falam que você deveria entrar.
E aí, uns anos atrás, eu, né, tive um filho e aí eu tive um diagnóstico de autismo. Cara, isso é muito doido, né?
Aí, no começo, eu acho que eu ignorei um pouco, matei essa parte dentro de mim. No começo era mais fácil porque é uma criança pequena, então é muito mais fácil de lidar.
E aí começaram a aparecer as dificuldades e eu comecei a ver o quanto era difícil encontrar roupas que ele me deixasse vestir. Teve um período muito grande que ele andava descalço, ele não colocava sapato.
Então eu lembro de chorar e, assim, falar: “Meu Deus, eu preciso que esse menino um dia use sapato.” E não conseguia.
E era muito difícil deixar ele arrumado, cara. Toda hora ele tá, pô, parecia que tava de pijama. E eu tenho que inverter todas as roupas porque a costura incomoda, as etiquetas incomodam.
E foi muito doido que, na pandemia, eu comecei a usar roupa mais confortável, eu comecei a trabalhar em casa. Aí eu percebi o quanto isso me incomodava também.
Só que eu fiquei pensando: “Cara, que doido, né? A gente, por um condicionamento social, esquece e aceita coisas que nos incomodam, cara. A gente aceita viver sufocado e a gente para de sentir as coisas.”
Daí eu falei: “Cara, isso começa muito pela roupa.”
E eu já tinha tido essa ideia de que: “Meu Deus, eu vou fazer roupa pro meu filho porque não existe. Não consigo comprar coisa sem etiqueta, sem ter um negócio me sufocando, uma coisa me coçando. Imagina para a criança.”
E aí eu falei: “Não, inclusive… ah, inclusive, ser inclusivo.” Que que é ser inclusivo?
É que todo mundo possa pertencer ao mesmo ambiente, independente da pessoa ser típica, atípica, se incomodar, não se incomodar.
Às vezes, quantas pessoas esqueceram de sentir, esqueceram de… cara, ou sentem demais ou sentem de menos, né? É muito doida essa parada do autismo e, ao mesmo tempo, as pessoas estão, né, todo mundo à base de medicamento e já não sente mais nada porque tá na hamster wheel, né, ou tá no automático.
E aí eu falei: “Cara, eu vou fazer roupas que sejam atypical friendly, que sejam sensoriais, que você se sinta bem, que você seja bonito e que você também possa ser cool, meu.”
E eu fiquei muito tempo tentando fazer escalar coisas dos outros, produtos dos outros. Falei: “Não, cara, dessa vez não dá para ter medo, entendeu?”
E aí uma pessoa que trabalha comigo, que é meu amigo inclusive, olhou para mim e falou assim: “Flávia, só faz.” Daí eu falava: “Não, mas não faz sentido, cara.”
Daí ele falou: “Que sentido você quer num mundo que gira quilômetros, milhares de quilômetros, e a gente continua parado numa bola de pedra girando? Nada faz sentido. Só faz.”
Hoje foram as pilotos, né? Finalmente isso começou a se tornar realidade, porque antes era só um sonho, enfim, né? Um manual de marca, uma marca aprovada, um moodboard. E aí hoje, assim, para mim foi muito doido.
Eu não sou uma pessoa muito emotiva, mas hoje eu pegar as primeiras peças me deu uma sensação assim, claro, de um pouco de medo, mas de materialização de uma parada que eu acho que faz muito sentido, cara.
Porque, assim, eu acho que as coisas têm que ter propósito. Eu acho que a gente perdeu muitos propósitos e, para mim, é, assim, um super propósito você construir algo que vai ajudar as pessoas, que faz sentido, entende? Que talvez vai ser disruptivo e tirar muita gente desse desconforto constante, sabe?
E pensar que eu tenho um passo adiante de uma coisa que pode ajudar muita gente e que pode vir, enfim, a apoiar projetos, enfim, a fazer sentido, né, para outras pessoas do mundo. Talvez não seja só uma coisa da minha cabeça. É, é muito legal, assim. É um passo a mais, né?